Riachão é a estrela no “Samba da Bahia, todo mundo canta”

Confira o quarto episódio da série produzida pelo É samba da Bahia!, grupo de pesquisa do Coletivo Sindicato do Samba focado na cultura popular baiana.

“Minhas composições são todas baseadas na realidade do que eu vejo”, dizia o mestre Riachão ao se referir a suas criações. Tanto viveu um dos grandes baluartes do samba da Bahia que flertou com o centenário: “Se Deus quiser vou chegar aos cem”, cantava em seus últimos aniversários, dias felizes celebrados em sua residência no bairro do Garcia, quando se esbaldava com a roda de samba e o afeto dos amigos e familiares.

Foi por pouco. Nos deixou bem no início de um tempo que não permite abraços, beijos, apertos de mãos e reuniões de samba – situações outrora banais, tão caras a ele, e que hoje são raras. Tampouco gurufins, que velhos malandros como ele devem ter, como manda a tradição. Mas, sendo Deus a música, como ele mesmo apregoava, é eterno quem nela vive.

O compositor de clássicos como “Cada macaco no seu galho” e “Vá morar com o Diabo” estava feliz em seus últimos dias de vida, já que se preparava para gravar mais um disco, o quarto álbum individual de sua carreira. “Já estou procurando em minha mente algumas delas para gravar”, disse ao repórter que escreve estas linhas, em novembro de 2019. Uma delas era “Jaqueira com Mangueira”, que a série “Samba da Bahia, todo mundo canta” apresenta em primeira mão hoje.

Riachão deu adeus, mas a empreitada pela permanência e difusão do seu legado segue em frente. O diretor musical do seu novo disco, Paulinho Timor, assegura que será possível produzir algumas faixas com o próprio Riachão cantando, aproveitando registros do sambista baiano que já haviam sido feitos. Outras faixas contarão com participações especiais – Martinho da Vila já confirmou presença.

Enquanto o disco não vem – a previsão é que seja lançado no final deste ano ou no início de 2021 -, relembremos as histórias de Riachão e celebremos a sua música que tem a força de uma oração.

Produção: É Samba da Bahia!
Idealização e edição: Maria Pinheiro
Arte: Kelvin Koubik
Texto: André Carvalho
Filmagem: André Piruka (André Ricardo)
Vídeo gentilmente cedido por Paulinho Timor

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JAQUEIRA COM MANGUEIRA
(Riachão)

Eu moro bem pertinho da Mangueira
Ela bem pertinho da Jaqueira
Com saudade fico olhando pra janela
Me entristeço quando não vejo ela
Chega uma vez na janela, ó bela (2x)

Quando chega a saudade
(Ô saudade!)
Também chega meu sofrer
(Meu sofrer!)
Olho ela e não vejo
Só parece que vou morrer
(Que eu vou morrer!)

90 anos de Mauro Duarte, um compositor fundamental

Conhecido carinhosamente como Mauro Bolacha, compositor foi um dos principais nomes da “Turma de Botafogo” e viu sua obra ser gravada por nomes como Clara Nunes e Paulinho da Viola.

“Maravilhoso, calmo, discreto, inspirado e amigo pra caramba”. É dessa maneira que o violonista e produtor Paulão 7 Cordas se recorda de Mauro Duarte, compositor que celebraria 90 anos em 2020. “Morávamos no mesmo prédio em Botafogo. Meu filho Ramon mora lá até hoje e a Dona Neia, viúva do Mauro, também”, conta Paulão.

Paulão 7 Cordas, Ignez Perdigão, Cristina Buarque e Mauro Duarte em show no Arco da Velha. (Acervo pessoal de Paulão 7 Cordas).

Mauro Duarte de Oliveira nasceu no dia 2 de junho de 1930 no município mineiro de Matias Barbosa, mas logo cedo, com seus 3 anos de idade, foi com a família viver na cidade do Rio de Janeiro.

Iniciou a trajetória artística de maneira natural pelas andanças por Botafogo, entre bares, blocos de carnaval e encontros no importante Teatro Opinião, na década de 1960. Em seguida, veio o ingresso no grupo “A Voz do Morro”, conjunto que participou ao lado de nomes como Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros.

Elton, aliás, chegou a afirmar que Bolacha era imbatível na arte de compor canções em tons menores, o que a dupla fez com exímia perfeição, por exemplo, em sambas como “Maioria sem Nenhum” e “Coração em Chamas”. No vídeo abaixo, Mauro canta seu primeiro sucesso, gravado por Miltinho, para os amigos Elton e Paulinho da Viola.

Ao lado de bambas como Paulinho, Walter Alfaiate, Mical e Zorba Devagar, Mauro foi um dos líderes da turma de sambistas do bairro de Botafogo e viu sua obra ganhar projeção principalmente na voz da cantora Clara Nunes, que consagrou músicas como “Lama”, “Canto das Três Raças” e “Portela na Avenida”.

Essa trajetória e relação com o samba e com os amigos foi lembrada pela filha de Mauro, Márcia Duarte, nos áudios a seguir:

Andanças e composições

Companheiro e carinhoso, Mauro despertava cedo para dar conta do batente e das demandas familiares. E, claro, tudo isso para a noite dar aquela escapulida aos sambas. Bom mesmo era aos domingos, quando gostava de sair por ai caminhando, com o plano de sempre: de bar em bar, alegre.

Num domingo destes da década de 1980, Bolacha acionou o amigo baiano Edil Pacheco, sambista que na época vivia no Rio. Da caminhada e do porre, nasceu a parceria “Sonho e Realidade”, samba gravado pelo Samba de Fato em disco lançado em 2008: “Ele veio com a primeira e fiz a segunda no mesmo dia, era um domingo de tarde. Saudades pra caramba do Mauro”, conta Edil recordando das noites juntos no Clube do Samba, movimento fundado por João Nogueira.

Em matéria de Mauro Duarte, o trabalho do conjunto Samba de Fato merece uma nota de excelência e é necessária para quem quer visitar a obra de Bolacha. O disco ainda traz participações de nomes como Paulo César Pinheiro e Cristina Buarque.

E falando em um dos maiores letristas do país, vale dizer que Paulo César Pinheiro foi o parceiro mais frequente de Mauro. A amizade rendeu até um show em homenagem ao sambista de Botafogo na celebração de 70 anos de Paulo César, celebrado no ano de 2019 na Casa do Choro, no Rio. Vale assistir:

Bolacha faleceu em 1989, aos 69 anos, sem o devido reconhecimento da grande mídia. Se isso fosse um país sério, Mauro Duarte era tema obrigatório de escola, um compositor fundamental.

Muito admirado e querido no mundo do samba, sua obra permanece, pois é uma chama que não se apaga nunca, ainda mais porque é permanente o trabalho de memória que os quatro filhos e Dona Neia desempenham, visitando pessoalmente vários movimentos culturais da cidade do Rio e de todo país, semeando e difundindo as músicas de Mauro.

Se as obras de Bolacha já estão eternizadas, o pai Mauro também continua vivo nos encontros da família, como pai querido e amigo inesquecível, tal qual podemos nos deliciar nesse áudio de Márcia Duarte:

 

Toninho Nascimento conta sua história no Na Sala

Coletivo Sindicato do Samba e Toninho Nascimento apresentam a vida e obra do compositor no programa “Na Sala”

Autor de sucessos gravador por artistas como Clara Nunes, Elizeth Cardoso e Roberto Ribeiro para dizer apenas alguns, o compositor Toninho Nascimento está sempre presente nos projetos do Coletivo.

Isso, desde o começo, nas tarde de samba em nossa laje no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, ao lado de bambas como Luiz Grande. Pois bem, resultado dessa amizade e, claro, do talento de Toninho, estivemos juntos no programa “Na Sala”, onde o poeta contou um pouco de sua vida e cantou alguma de suas obras.

Um muito obrigado a toda equipe do programa pelo convite e pela parceria! 😉 Não se esqueçam de se inscrever tanto no canal do programa, quanto no nosso! Axé!