90 anos de Mauro Duarte, um compositor fundamental

Conhecido carinhosamente como Mauro Bolacha, compositor foi um dos principais nomes da “Turma de Botafogo” e viu sua obra ser gravada por nomes como Clara Nunes e Paulinho da Viola.

“Maravilhoso, calmo, discreto, inspirado e amigo pra caramba”. É dessa maneira que o violonista e produtor Paulão 7 Cordas se recorda de Mauro Duarte, compositor que celebraria 90 anos em 2020. “Morávamos no mesmo prédio em Botafogo. Meu filho Ramon mora lá até hoje e a Dona Neia, viúva do Mauro, também”, conta Paulão.

Paulão 7 Cordas, Ignez Perdigão, Cristina Buarque e Mauro Duarte em show no Arco da Velha. (Acervo pessoal de Paulão 7 Cordas).

Mauro Duarte de Oliveira nasceu no dia 2 de junho de 1930 no município mineiro de Matias Barbosa, mas logo cedo, com seus 3 anos de idade, foi com a família viver na cidade do Rio de Janeiro.

Iniciou a trajetória artística de maneira natural pelas andanças por Botafogo, entre bares, blocos de carnaval e encontros no importante Teatro Opinião, na década de 1960. Em seguida, veio o ingresso no grupo “A Voz do Morro”, conjunto que participou ao lado de nomes como Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros.

Elton, aliás, chegou a afirmar que Bolacha era imbatível na arte de compor canções em tons menores, o que a dupla fez com exímia perfeição, por exemplo, em sambas como “Maioria sem Nenhum” e “Coração em Chamas”. No vídeo abaixo, Mauro canta seu primeiro sucesso, gravado por Miltinho, para os amigos Elton e Paulinho da Viola.

Ao lado de bambas como Paulinho, Walter Alfaiate, Mical e Zorba Devagar, Mauro foi um dos líderes da turma de sambistas do bairro de Botafogo e viu sua obra ganhar projeção principalmente na voz da cantora Clara Nunes, que consagrou músicas como “Lama”, “Canto das Três Raças” e “Portela na Avenida”.

Essa trajetória e relação com o samba e com os amigos foi lembrada pela filha de Mauro, Márcia Duarte, nos áudios a seguir:

Andanças e composições

Companheiro e carinhoso, Mauro despertava cedo para dar conta do batente e das demandas familiares. E, claro, tudo isso para a noite dar aquela escapulida aos sambas. Bom mesmo era aos domingos, quando gostava de sair por ai caminhando, com o plano de sempre: de bar em bar, alegre.

Num domingo destes da década de 1980, Bolacha acionou o amigo baiano Edil Pacheco, sambista que na época vivia no Rio. Da caminhada e do porre, nasceu a parceria “Sonho e Realidade”, samba gravado pelo Samba de Fato em disco lançado em 2008: “Ele veio com a primeira e fiz a segunda no mesmo dia, era um domingo de tarde. Saudades pra caramba do Mauro”, conta Edil recordando das noites juntos no Clube do Samba, movimento fundado por João Nogueira.

Em matéria de Mauro Duarte, o trabalho do conjunto Samba de Fato merece uma nota de excelência e é necessária para quem quer visitar a obra de Bolacha. O disco ainda traz participações de nomes como Paulo César Pinheiro e Cristina Buarque.

E falando em um dos maiores letristas do país, vale dizer que Paulo César Pinheiro foi o parceiro mais frequente de Mauro. A amizade rendeu até um show em homenagem ao sambista de Botafogo na celebração de 70 anos de Paulo César, celebrado no ano de 2019 na Casa do Choro, no Rio. Vale assistir:

Bolacha faleceu em 1989, aos 69 anos, sem o devido reconhecimento da grande mídia. Se isso fosse um país sério, Mauro Duarte era tema obrigatório de escola, um compositor fundamental.

Muito admirado e querido no mundo do samba, sua obra permanece, pois é uma chama que não se apaga nunca, ainda mais porque é permanente o trabalho de memória que os quatro filhos e Dona Neia desempenham, visitando pessoalmente vários movimentos culturais da cidade do Rio e de todo país, semeando e difundindo as músicas de Mauro.

Se as obras de Bolacha já estão eternizadas, o pai Mauro também continua vivo nos encontros da família, como pai querido e amigo inesquecível, tal qual podemos nos deliciar nesse áudio de Márcia Duarte:

 

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