Em 4 tempos: Império Serrano, Mangueira, Portela e Salgueiro

Em reportagem feita pelo Sindicato e publicada na Revista Serafina do jornal Folha de São Paulo no dia 23 de fevereiro de 2014, bambas da velha guarda carioca falam sobre suas histórias no carnaval.

*Por Camilo Árabe

Em frente à bilheteria do Engenhão, na zona norte do Rio, a casa de Noca da Portela é toda azul e branca. O calor é forte e, aos 81 anos, ele convida: “Vamos tomar um chá de macaco!” Imediatamente, um dos netos traz uma cerveja, enquanto os bisnetos se divertem na piscina de plástico no fundo do quinta

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Mineiro de Leopoldina, Noca tem cerca de 400 composições gravadas por artistas como Clara Nunes e Beth Carvalho e diz ter outras mil inéditas. Feirante durante boa parte da vida, desde a década de 90 sustenta a família com o samba: “Coloca aí que, graças a Deus, eu pago a faculdade dos meus seis netos”.

As cores da casa não estão lá por acaso: são as cores da Portela. “Em 1966, o trio ABC da Portela estava precisando de um violão. Aí o Paulinho da Viola me indicou.”

No mesmo ano, teve que passar por um teste, aplicado por Candeia, para entrar na ala dos compositores: “Ele me deu 10 mil réis para almoçar e falou para eu voltar com um samba”. Noca compôs “Minha Portela Querida”, hoje um clássico da tradicional escola de samba, e foi aprovado.

Além de sambista, Noca também se diz comunista. Já foi Secretario Estadual de Cultura do Rio de Janeiro e militou na campanha das Diretas Já, quando fez política em formato de samba. “Tenho orgulho de ter feito duas músicas para a campanha.”

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Wilson das Neves, 77, é normalmente conhecido por ser o baterista de Chico Buarque, apesar de acompanhar grandes nomes da música brasileira desde a década de 60.

Craque das baquetas, em 1994 ele começou a ser reconhecido também como compositor e cantor -ainda que não se reconheça como tal. “Eu não sou cantor. Cantor é o Pavarotti”, diz, durante show na Sala Funarte, em fevereiro deste ano, antes da conversa com Serafina.

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Cada música é acompanhada de uma história, uma piada, uma tirada. “Ô Sorte!”, alguém grita da plateia e logo Wilson responde da mesma maneira.

É seu famoso bordão que remete a uma de suas paixões: a escola de samba Império Serrano. “‘Ô Sorte’ era uma saudação que eu tinha com o puxador de samba Roberto Ribeiro. Sorte de ser imperiano!”, diz.

Wilson chegou à escola verde e branca ainda criança, levado pela mãe, que era da ala das baianas. “Esse ano o Império vai subir, nem que seja num pedestal”, brinca sobre o fato de a agremiação estar na divisão de acesso do Carnaval. A paixão pela escola é grande, mas não o bastante para ele se arriscar “no negócio que virou a composição de sambas-enredo”: “Nunca fiz, não. Deus me livre. Isso é pra quem quer arrumar inimigo de graça”.

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“Eu já me conheci como Tantinho. Deve ser pelo meu tamanho”, conta Devani Ferreira, com seu 1,60 m, na quadra da Estação Primeira de Mangueira.

Aos 13 anos, entrou na ala dos compositores da verde e rosa levado por ninguém menos que Cartola, fundador da escola. Nos anos 1960, foi um dos puxadores da agremiação. “Naquela época, a gente era chamado de crooner. O Jamelão foi quem autorizou: ‘Coloca o Tantinho que ele canta pra caralho!”‘

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São 67 anos de vida e 62 de Carnaval. “A gente só se interessa pela Mangueira”, diz. Apreciador do samba de partido-alto, o mangueirense lamenta o rumo atual do Carnaval carioca: “Nunca houve esse estilo de samba-enredo atual, essa correria, essa ignorância de linha melódica. Há uma descaracterização dos sambas de terreiros. Isso deixou os compositores antigos sem rumo.”

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Aos 88 anos, Djalma Sabia é o único fundador vivo da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Sua casa, na Tijuca, é um dormitório de no máximo 20m2. E as paredes são tomadas por centenas de fotos, quadros, troféus, recortes de imprensa: trata-se de um museu sobre a história da vermelho e branco.

é o único fundador vivo da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Sua casa, na Tijuca, é um dormitório de no máximo 20m2. E as paredes são tomadas por centenas de fotos, quadros, troféus, recortes de imprensa: trata-se de um museu sobre a história da vermelho e branco.

“Minha casa vive cheia de historiadores, pesquisadores e estudantes”, diz o autor de seis sambas-enredo para a escola. “Eu largava tudo pelo Salgueiro, até minha família. Era tudo por amor.” Hoje, olha desconfiado o futuro do Carnaval e das escolas: “O samba mudou muito. A escola de samba virou uma casa de shows. Mas a gente tem que aceitar, mesmo que a contra gosto. É tudo por conta do capital, pois sem dinheiro você não faz nada”.

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*Ilustrações de Luciano Schmitz

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